[O texto a seguir foi originalmente publicado na quinta edição da revista Fotografia et al. em junho de 2016 https://issuu.com/fotografiaetal/docs/revista_fotografia_et_al_-_e005_-_j]
Delicadezas no ato e retrato do nu
Posar nua é entrega. Poucos profissionais da fotografia possuem a sensibilidade de compreender que corpo é expressão e que a modelo, ao dispor-se para a câmera, precisa confiar em quem a fotografa. É um trabalho em equipe, precisa haver cumplicidade e respeito mútuos. Os profissionais que possuem a sensibilidade de captar que corpo é muito mais que imagem, é história, memória, traumas, identidade, além de veículo para expressão e arte, da modelo, são os que captam imagens poderosas. É importante respeitar a modelo. Respeitar sua doação, compreender que é um ato de generosidade e coragem dispor-se às câmeras alheias.
Entre 2007 e 2014 posei nua para diversos(as) fotógrafos(as). Foram mais de 60 pessoas com diversos graus de experiência, desde o estudante que tremia ao fotografar e dizia “faz o que você quiser”, ao “dedo nervoso” (mudo, não para de clicar freneticamente, se escondendo atrás da câmera), até o profissional que sabe exatamente o que quer, trata a modelo com educação, conversa sobre o briefing, e já deixou a luz pronta em seu estúdio. Dessa experiência aprendi que um bom trabalho é realizado com estudo, prática, doação e boas relações humanas.

Como modelo, adquiri a consciência de que ser fotografada é tornar-se imagem. Por isso, é preciso atenção aos significados que podemos construir enquanto corpo que performa diante de uma objetiva. A seleção do que a modelo propõe é responsabilidade do fotógrafo e por isso a modelo deve confiar em seu olhar para que se sinta à vontade e consiga doar-se na sessão.
A primeira (e última) fotógrafa a quem posei fui eu mesma. Posar foi como um palco para me expressar e, por que não, para me conhecer. Cada mulher que posa nua o faz também como ato de autoconhecimento. Comecei a posar quando estudava Artes Visuais, sequer tinha 18 anos mas já buscava me entender como mulher e como performar o gênero feminino. Fotografar-me fez parte do percurso de inventar e experimentar possibilidades de ser.
Para as mulheres, a questão de sua imagem é bastante carregada de importância, não só em termos pessoais, mas em termos culturais e históricos. Segundo o crítico de arte John Berger, em seu livro clássico Ways of Seen, “In the art-form of the European nude the painters and spector-owners were usually men and the persons treated as objects, usually women”. Na história da arte, a mulher foi incontáveis vezes representada. Em nossa cultura, infelizmente, o valor da mulher muitas vezes passa por sua aparência. Esse peso cultural dado à imagem feminina pode gerar angústia e sofrimento. Mesmo a modelo profissional, enquadrada no estrito padrão de beleza fashion, carrega inúmeras preocupações, inseguranças e ansiedades quanto à sua aparência. Compreender criticamente que a imagem produzida de uma mulher implica valores históricos, culturais e psicológicos é uma responsabilidade que deve ser assumida por quem trabalha com criação de imagens do feminino. Fazer arte é, inevitavelmente, um ato político — é melhor fazê-lo com consciência.
Fotografei algumas mulheres nuas também. Nenhuma modelo profissional, apenas amigas que buscavam algo e usaram a fotografia como meio para ajudá-las nessa busca pessoal. Cada uma dessas mulheres é única, cada corpo carrega uma vivência própria. Foi ótimo conversar com cada uma delas antes de começar a fotografá-las. É essencial uma aproximação e diálogo empático entre fotógrafo e modelo antes da sessão começar. O corpo nu é potência, a nudez será vestida pela modelo e saber um pouco de sua história ajuda a captar o corpo em sua melhor expressão, enquanto performance, na sessão.

mais sendo modelo de mim mesma e assumindo o que chamo de “Autonomia do Retrato”. Me inspiro em fotógrafas e artistas como Francesca Woodman, Hester Scheurwater, Rita Lino, Cindy Sherman, Ana Mendietta, Helga Stein, Sophie Calle, entre outras. É sempre importante perceber uma tradição artística que lhe precede e dialogar com ela.
Então, performo para um “olho invisível” que capta o ângulo, a luz e a pose que eu desejar. Gosto de intervir digitalmente e aproximo minhas fotografias à arte digital (talvez porque também flerto com a pintura). O enquadramento é mais difícil de comandar pois a posição da câmera é fixada no instante que antecede o ato. Em dez segundos, de fotógrafa viro modelo. O fluxo do autorretrato é menos fluido do que desempenhar apenas um papel, fotógrafa ou modelo. É mais anguloso, em zigue-zague. Por outro lado, é interessante me surpreender com o que a câmera captou e ir fazendo ajustes até que a imagem esteja montada e encenada como eu preferir. Criar o cenário, desenhar a luz, performar diante da câmera e intervir digitalmente faz desses autorretratos uma produção híbrida onde posso evocar minha experiência com teatro, dança e pintura.
Perceber que emprestei meu corpo para fantasias alheias que muitas vezes representavam uma noção de feminino que pode violentar a dignidade e saúde emocional de muitas mulheres me fez repensar meu papel. A consciência de que a imagem da mulher tem densa tradição histórico-cultural, que cada corpo é repleto de memórias, é grávido de múltiplos sentidos e que há um inevitável posicionamento político ao representar um corpo, é essencial para exercer a profissão com responsabilidade. Acima de tudo, respeitar quem trabalha com você, ser confiável, cumprir compromissos e levar seu trabalho e o trabalho da modelo e da equipe a sério, são o básico para quem vai fotografar nu, ou qualquer coisa.
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